Histórias de sobreviventes da Segunda Guerra Mundial

capa_sobreviventesSofrimento, perda, invasões, torturas e esconderijos fizeram parte das histórias relatadas por Johannes Mellis, Bernard Kats e Curtis Henry Stanton, sobreviventes da Segunda Guerra Mundial. Participei deste evento no mês passado, e cobri para o site da HUBNews. A palestra foi, simplesmente, incrível. E achei digno compartilhar aqui as histórias de vida desses homens.

Johannes Mellis tinha apenas dois anos quando a guerra começou. Nascido na cidade de Reormond na Holanda, conta com orgulho os sacrifícios feitos pelo pai para salvar suas vidas. Mesmo que a Holanda fosse um país neutro no início do terror, seu pai sempre alertava a família para que se preparassem, caso um ataque alemão viesse a ocorrer. Para proteger a família e os judeus, o pai Hendricus Ruthgerus Mellis construiu diversos esconderijos dentro da própria casa, como um armário embutido giratório, embaixo da pia, no sótão e na dispensa.

Enquanto qualquer suspeito era perseguido, o pai de Johannes pode aproveitar, mesmo que por pouco tempo, a liberdade. Ele trabalhava em um orgão do governo responsável pelas comportas do rio, e isso lhe rendeu uma carta de liberdade para que pudesse passar pelas barreiras militares. Quando Hendricus Mellis participou do Exército Subterrâneo Holandês e afundou um navio, ele perdeu a carta. Consequentemente, a rotina da família mudara completamente. “Papai está viajando e mamãe está doente”, era a frase repetida por Mellis cada vez que os oficiais alemães batiam na porta de sua casa. O medo tomou conta da família toda, e por isso o pai de Mellis decidiu levar todos a outro esconderijo. Foram descobertos e o pavor veio à tona novamente. “Tudo acontecia sem que a gente soubesse o que estava acontecendo”, relembrou o sobrevivente. Quando seus mantimentos chegaram ao fim, o pai foi em busca de água e, no caminho, encontrou soldados aliados, que os levaram para o sul da Holanda. Lá foram abrigados por uma família belga até a guerra terminar. Após o término do conflito, a família retornou para a sua antiga casa na Holanda, ou melhor, para o que havia restado dela.

Com a tentativa de esquecer o pesadelo e os resquícios deixados pela guerra, o pai de Mellis resolveu migrar para o Brasil, onde a família mora até hoje. Mellis conta que os pais nunca se recuperaram, e que por muito tempo ele teve pesadelos com o conflito. Somente quando encontrou sua esposa, ele conseguiu esquecer o sofrimento. Hoje, Johannes Mellis tem 3 filhos, e completou 50 anos de casado. Mostra com orgulho as medalhas que o pai recebeu e conta a todos, que há uma árvore plantada em homenagem a família no bosque de honra em Jerusalém. “Nem todo judeu teve a sorte de encontrar uma família Mellis”, citou uma carta deixada por uma refugiada.

O próximo a falar foi Bernard Kats, também holandês. Conta que a casa em que morava com a família era bem em frente a uma estação de trem, e lembra em detalhes dos barulhos feitos pelos vizinhos após um tanque das tropas alemãs ter atropelado um ciclista que, em protesto, não saiu do meio rua. Na segunda vez que Kats ouviu o ruído típico das botas alemãs próximos a sua casa, foi para buscarem seu pai, que foi enviado ao campo de detenção Westerbork e logo levado ao KZ Mauthausen. Uma carta veio para anunciar a morte do pai.

Com medo da perseguição e repressão, a mãe de Kats entregou ele e sua irmã à uma organização de uma igreja calvinista. “Meu nome não era mais meu nome, meu sobrenome não era mais meu, fomos doutrinados a esquecer tudo”, contou que eram chamados por outros nomes para que tivessem a chance de viverem seguros. Por muito tempo, eles tiveram que viver em uma casa de campo, onde não podiam sair. Sua mãe estava morando em uma cidade central da Holanda e percorreu, com uma amiga, 150 km de bicicleta para reencontrar os filhos. “Demorei muito para conseguir falar sobre isso. Por muito tempo sofri um sentimento de culpa, pensava ‘por que estou vivo se meus pais e outros milhares morreram nesta guerra?”, relembrou.

Com o final da guerra, ele decidiu migrar para o Uruguai, onde conheceu sua esposa e teve 2 filhas. Em 1970, Kats veio morar em Porto Alegre e teve mais um filho. No ano de 1979, resolveu passar as férias na Holanda, onde jamais tinha voltado até então, e, em visita a Casa de Anne Frank, em Amsterdã, foi a primeira vez em que conseguiu contar sobre a guerra para sua família. Quando voltou para o Brasil, resolveu que estava na hora de escrever um livro com suas memórias, para que elas não se perdessem com o tempo. Decidiu enviar uma cópia para sua primeira namorada, que ainda morava na Holanda. Ela devolveu o livro, sem ao menos ter aberto. “Mas eu sabia e entendia os seus motivos para não querer lê-lo, toda sua família morreu em campos de concentração”, contou Kats.

Por fim, o alemão Curtis Henry Stanton ao contar que dois de seus irmãos e seus pais vivenciaram e lutaram pela Alemanha da Primeira Guerra Mundial, não esconde o fato de nunca entender como seus pais poderiam obedecer as regras que lhe eram impostas. Com a entrada de Hitler no poder, o pai, que na época era gerente de uma loja em Hamburgo, perdera o cargo. A partir de então, a realidade da família mudou completamente. Stanton tinha apenas 12 anos quando a guerra começou e lembra que, juntamente com seus irmãos, era obrigado a carregar a estrela de Davi na roupa para que fosse diferenciado das demais crianças e identificado como judeu. Conta, ainda, que a escola foi seu maior problema. “Meus amigos sumiram, e não tinha mais ninguém para brincar”, lamentou o sobrevivente.

A família Stanton foi convocada a comparecer na estação central de Hamburgo, levando apenas uma mala para ele, o pai e a mãe. “Éramos 70 pessoas em um vagão, tratados como carne, sem comida, água, e sem ter como fazer nossas necessidades”, lembrou do sofrimento. Aos 12 anos, ele trabalhava em uma fábrica de munições fazendo caixas de madeira para exército alemão, devido ao fato de não se alimentar direito, teve pneumonia e foi para o hospital. Sem medo de enfrentar as forças superiores, Stanton saiu do hospital e voltou para o gueto, onde moravam, e encontrou seu pai morto.

Sem saber exatamente o que acontecia dentro de um campo de concentração, ele e sua mãe foram retirados do gueto e levados diretamente para Auschwitz. Ele foi separado de sua mãe, sem saber que esta seria a última vez que a veria. Sua mãe morreu na câmara de gás. Ele passou a trabalhar organizando as roupas dos mortos nas câmaras de gás. “O que era política na época? Fazer com que os judeus trabalhassem como escravos”, comentou. Passou fome, viu muitas pessoas tentando fugir e sendo mortas. “Nunca fiquei sabendo de alguém que tenha conseguido fugir”, contou. Foi transferido para Mauthausen-Gusen, e teve que percorrer o trajeto a pé, escoltado por tropas nazistas e correndo o risco de ser fuzilado, caso não resistisse. Muitos não tinham roupas e calçados suficientes para aguentar a caminhada. “Eu tive a sorte de ter. Não tínhamos a mínima noção de tempo”, recordou o sofrimento. De Mauthausen-Gusen a outro campo próximo à Berlim, os motoristas dos caminhões e soldados nazistas desistiram da viagem, enquanto ela ainda ocorria. Devido a isso, Stanton e os homens que estavam na viagem foram liberados. “Tentar viver uma vida normal, para mim, era a coisa mais difícil, e não foi resolvido muito rápido. A gente vivia somente com uma ideia na cabeça, como sobreviver?”, ressalta Curtis Stanton.

Reencontrou sua irmã em Paris e por lá ficou durante um ano. Tentou voltar a estudar, mas afirma não ter gostado. Trabalhou em um restaurante de Fast Food, mas também não se adequou, assim como quando começou na indústria. “O que eu gostava mesmo era da vida noturna, que muito aproveitei”, ressalta provocando risos da plateia. Voltou para a Alemanha em 1955, e começou a trabalhar em uma fábrica. Ainda não satisfeito, resolveu mudar mais uma vez, e foi para Montevideo, no Uruguai. Porém, a fábrica não o aceitou, alegando não precisar de seus serviço, e o mandaram para Porto Alegre, onde está há 57 anos já e constitui sua família.

Bernard Kats lembra ainda que as famílias que ajudaram os judeus foram condecoradas com medalhas e certificados. “Nem todo alemão era nazista e nem todo nazista era alemão”, ressalta Kats.

O painel “Compromisso Moral e Lições de Solidariedade” é promovido pelo Instituto Cultural Judaico Marc Chagall e pelo B’nai B’rith Brasil, e fez parte da Semana do Internacionalista ESPM. Além de aproximar a realidade da Segunda Guerra Mundial, o projeto tem como objetivo trazer a postura dos valores do ser humano, mostradas no abrigo dado aos judeus, a solidariedade e a esperança.

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